domingo, 5 de junho de 2011

A caminho do bisturi como o boi para o matadouro - Jorge Hessen

Ressurge, nas hostes espíritas, a fascinação pela procura de médiuns incorporadores de “médicos” do além, à moda “Zé Arigó” [alguns nem utilizam instrumentais cirúrgicos]. Em que pese existirem médiuns não-espiritas sérios, e que nada cobram dos pacientes, há aqueles que jamais recomendaríamos. Sabemos da intervenção dos desencarnados nos processos terapêuticos na Terra, mas não se pode dar ênfase a esse tipo de trabalho, na suposição de consolar almas desvalidas ou na falsa idéia de fortalecimento do Espiritismo por esses meios. Temos exemplos tristes dessa prática dispensável nos meios espíritas. Leitor amigo, procure se informar qual foi o destino do Zé Arigó, em Minas; do Edson Queiróz, em Pernambuco, e do Rubens Faria, no Rio de Janeiro.

Há, no interior de Goiás, um médium conhecido (principalmente, fora do Brasil) que atende cerca de 2000 pessoas por dia. Na sua instituição, vende-se um frasco, contendo cápsulas, à base de maracujá, no valor de R$ 10,00 (dez reais). Se, na ponta do lápis, somarmos o montante dessas vendas, com outras despesas que o centro acaba impondo aos seus assistidos, chegaremos, facilmente, a cifras de milhões de reais por ano. Por essas e outras muitas razões, certa vez, perguntaram ao Chico Xavier: “Têm surgido muitos médiuns e curadores por este Brasil afora, que receitam remédios e, até, operam os doentes. Qual a maneira de se identificar o verdadeiro do falso?” Chico responde: “EU CREIO QUE ISTO DEVA SER FRUTO DA EDUCAÇÃO DO SERTANEJO, ACREDITAR QUE, PAGANDO BEM, IRÁ CONSEGUIR CURAS ESPIRITUAIS. O VERDADEIRO ESPIRITISMO NÃO PODE COBRAR, NEM MESMO OS REMÉDIOS QUE RECEITA AOS DOENTES.

Chico evitava as queixas e escrevia sem parar, apesar das dores que sofria por causa de um tumor localizado na próstata. Agüentou o sofrimento enquanto pôde, mas a cirurgia era inevitável. Zé Arigó, o médium que incorporava o Dr. Fritz, e realizava cirurgias sem anestesia, ofereceu-se para operar o colega. Chico, humildemente, recusou a oferta e preferiu se internar numa clínica, em São Paulo. Antes, tomou o cuidado de entregar ao Dr. Elias Barbosa documentos particulares, pois “Ninguém sabe o que pode acontecer”, disse ele. Uma vez optando pelos médicos da matéria, sua atitude provocou uma grande polêmica no meio espírita. Por que não aceitou a oferta do Dr. Fritz, tão requisitado na época? Ele duvidava do poder dos Espíritos? O protegido de Emmanuel se limitou a repetir a resposta dada a Arigó: COMO EU FICARIA DIANTE DE TANTO SOFREDOR QUE ME PROCURA E QUE VAI A CAMINHO DO BISTURI, COMO O BOI PARA O MATADOURO? E EU VOU QUERER FACILIDADES? EU TENHO QUE ME OPERAR COMO OS OUTROS, SOFRENDO COMO ELES. Anos mais tarde, num desabafo, Chico deixaria de lado a diplomacia e disse: SOU CONTRA ESSA HISTÓRIA DE METER O CANIVETE NO CORPO DOS OUTROS SEM SER MÉDICO. O MÉDICO ESTUDOU BASTANTE ANATOMIA, PATOLOGIA E, POR ISSO, ESTÁ HABILITADO A FAZER UMA CIRURGIA. POR QUE EU, SENDO MÉDIUM, VOU AGORA PEGAR UMA FACA E ABRIR O CORPO DE UM CRISTÃO SEM SER CONSIDERADO UM CRIMINOSO? (1)

Sempre obediente aos conselhos do seu guia espiritual, explicava: “EU JA ME OPEREI 5 VEZES, E VÁRIOS MÉDIUNS ME OFERECERAM SEUS SERVIÇOS. O ESPÍRITO EMMANUEL ME DISSE: VOCE DEVERIA TER VERGONHA ATÉ DE PENSAR EM RECEBER ESTE TIPO DE CURA, PORQUE TODOS OS OUTROS DOENTES VERTEM SANGUE, ATÉ TOMAM DETERMINADOS REMÉDIOS PARA MELHORAR. COMO VOCE PRETENDE SE CURAR NUMA CADEIRA DE BALANÇO?". Daí, perguntaram-lhe: Chico, como conciliar os recursos da medicina terrestre, especialmente na área da cirurgia, com a correção de anomalias orgânicas em criaturas com processos de resgates cármicos? Chico Xavier, então, respondeu: “NÃO IMPORTA QUE A CIRURGIA FAÇA DESAPARECER ANOMALIAS INIBIDORAS OU DEFORMANTES DE IMPLEMENTOS SOMÁTICOS. O PERISPÍRITO CONSERVARÁ A DEFICIENCIA, QUE VAI SE PROJETAR PARA REENCARNAÇÕES FUTURAS, A NÃO SER QUE O ESPÍRITO DEVEDOR SE AJUSTE COM A LEI DA JUSTIÇA, COBRINDO COM AMOR A "MULTIDÃO DE PECADOS", SEGUNDO O EVANGELHO. A CIRURGIA CORRIGE TRANSITÓRIAMENTE AS DEFICIENCIAS FÍSICAS. O AMOR, TRABALHANDO NOS TECIDOS SUTIS DA ALMA, PURIFICA E REDIME PARA A ETERNIDADE.” (2) O que a medicina dos homens não conseguiu curar foi o problema da visão do Chico. Ele deu, mais uma vez, prova de que não se desviaria dos ensinamentos de Emmanuel ao recusar, em 1969, a oferta do médium Zé Arigó, que desejava operar, espiritualmente, seus olhos, dizendo-lhe o seguinte: "A DOENÇA É UMA PROVAÇÃO DO ESPÍRITO QUE DEVO SUPORTAR". (3)
Diante disso, e movido por justa preocupação, porquanto, há mais de trinta anos, laborando no jornalismo espírita, deliberei escrever, há dois anos, o seguinte: A revista Veja, de 14/06/2000, pág. 68, traz longa reportagem intitulada "Não ajuda em nada", demonstrando que pesquisas confirmam uma realidade preocupante, ou seja, que tratamentos alternativos (místicos), quase sempre, são ineficazes no restabelecimento da saúde de pacientes, especialmente, com câncer. É lastimável sabermos que existem, ainda, em nossas hostes, espíritas que evocam "Espíritos", para que lhes atendam como cirurgiões do “além”, que vão retalhando corpos em nome de “operações espirituais”; que lhes prescrevam medicamentos alopáticos, fitoterápicos (ervas "milagrosas") e chás de "coisa nenhuma” ou, ainda, que lhes forneçam dietas para emagrecimento. O Espírito André Luiz adverte: "Aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivos dos médicos desencarnados”. (4) A tendência de subestimar a contribuição da medicina humana, entregando nossas enfermidades aos Espíritos milagreiros do além (de preferência cirurgião com nome germânico ou hindu, como se isso impusesse maior credibilidade), para que "curem" complexos processos de metástases, por exemplo, é uma atitude equivocada. Os conceitos espíritas nos remetem à certeza de que a matriz das doenças está fincada no estado mental do enfermo, ou seja, o espírito é o verdadeiro responsável pelas enfermidades. Portanto, a rigor, não serão os agentes externos que proporcionarão a cura daqueles que teimam em permanecer entorpecidos, na condição de revoltosos ou hesitantes diante dos códigos de justiça, vigentes nos Estatutos Divinos, mas a mudança de comportamento, pois o equilíbrio das forças mentais impede que invasores se nutram das energias debilitadas. Não podemos, porém, ignorar, de forma alguma, as heranças que provêm das Leis de Causa e Efeito. As enfermidades que se alongam, por toda uma vida, são expiações decorrentes de profundas raízes de natureza moral, que só se extinguirão mediante o fim do resgate, pois, "A doença pertinaz leva à purificação mais profunda”. (5) Os Espíritos não estão à nossa disposição para promoverem curas de patologias que, não raro, representam providências corretivas para o nosso crescimento espiritual no buril expiatório. Nesse sentido, os dirigentes de núcleos espíritas deveriam promover bases de estudos e reflexões sobre as propostas filosóficas, científicas e religiosas do Espiritismo, ao invés de encetarem trabalhos espirituais para os inócuos "curandeirismos".

Os preceitos doutrinários nos esclarecem que devemos "Aproveitar a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação de valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé”. (6) Desta forma, são inoportunas certas manifestações de “promessas de cura das obsessões” com sessões da famosa corrente magnética brasiliense (prática "inventada” em Brasília, por grupos que seduzem empolgados “filantropômanos”, através do apelo assistencialista, inoculando estranhas práticas doutrinárias) como a magnetização "desobsessiva" para afastar Espíritos aos moldes de como se espantam moscas das feridas expostas. Para consubstanciar esse objetivo, recorrem ao auxílio da varinha de condão, do chamado "choque anímico", com o qual os enfermos se "libertam" dos obsessores, conforme promete livro (7) publicado pelos seguidores desse movimento equivocado. Há, ainda, outros núcleos que propõem aplicações de luzes coloridas (cromoterapias) para higienizar auras humanas e curar (pasmem): azia, cálculo renal, coceiras, dores de dente, gripes, soluços em crianças, verminose, frieiras, conforme propaga literatura específica. (8) Acreditem! Se não bastasse, recomenda-se, até, carvãoterapia (?!) para neutralizar "maus-olhados". Nesse sentido, segundo crêem, é só colocar um pedaço de tora de carvão debaixo da cama e estaremos imunes ao grande flagelo da humanidade - o "olho comprido”!

Algumas instituições espíritas têm distribuído uma pomada “CURA TUDO” como se fosse “água benta”. O que se nota, a bem da verdade, é que as instituições espíritas se desincumbem da vigilância para com a pureza doutrinária, tão necessária para o fiel desempenho dos trabalhos a que elas se destinam. O que se vê é um afrouxamento do rigor que se deve imprimir aos ideais sublimes. Abrir espaço para a liberdade de agir não significa aceitar as injunções pressionadoras de sistemas divergentes, nas casas espíritas, que teimam em se alojar aqui e ali, na tentativa de, pelo decurso do tempo, serem confundidos e aceitos como Espiritismo de fato, a exemplo do ramatisismo, armondismo, umbandismo etc, e mais, os apometristas, cromoterapistas, pomadistas, cepalistas etc. Que nos alcunhem de “fundamentalistas”, por defendermos os “fundamentos” da Doutrina Espírita, que nada mais é que estarmos harmonizados com as Leis da Natureza e que a ninguém é dado o poder de modificá-las, o que é bem diferente de permanecermos retrógrados diante dessas evidências. As vozes dos “vendedores de ilusões” não podem ecoar mais forte que essas leis e de nossa advertência, JAMAIS!!! Se alguém tem que silenciar, que não sejam os sinceros adeptos do Evangelho, via ESPIRITISMO. Cremos que os que se incomodam com essas admoestações deveriam, por coerência e bom senso, buscar outras propostas doutrinárias afins, e deixarem o Espiritismo em paz, a seguir seu curso sem enxertos perigosos.

O que queremos é a transparência doutrinária no movimento espírita, e não a confusão doutrinária; maior rigor para com os divergentes, a fim de que desanimem e se afastem de uma vez por todas. A vida moderna, globalizada ou não, está a pedir, isso sim, posicionamentos e comportamentos firmes e consentâneos com a proposta espírita. Como bem recomenda o ínclito Codificador, em Viagem Espírita 1862, pág. 33: "O excesso em tudo é prejudicial, mas, em semelhante caso, vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança". Sabemos que os que lêem estas linhas podem pensar que estamos revestidos de idéias ficcionais, mas podemos assegurar que não teríamos materiais tão imaginativos. Em recente entrevista ao jornal Alavanca - abril/maio-2000 - Divaldo Franco adverte sobre as "terapias alternativas", "curandeirismos" e a fascinação na prática mediúnica, apontando-as como fatores que têm desestabilizado o projeto da unidade doutrinária". É por essas e outras que a revista Veja, abril de 1999, registra que os médicos, da ala conservadora da psiquiatria, consideram os médiuns como dotados de neuroses, psicoses, desvios de personalidade, esquizofrenias, etc. Se pararmos para refletir, daremos uma certa razão para esses profissionais, até porque, muitos adeptos do Espiritismo não conhecem os livros de Allan Kardec, Emmanuel, André Luiz, Joanna de Ângellis, Bezerra de Menezes, Vianna de Carvalho e outros consagrados expoentes da difusão doutrinária e, lastimavelmente, estão aguilhoados nas práticas que comprometem todo o projeto doutrinário. O exercício dos Códigos Evangélicos nos impõem a obrigatória fraternidade e a compreensão aos adeptos dessas esquisitas práticas, o que não equivale dizer que devemos nos omitir quanto à oportuna admoestação, para que a Casa Espírita não se transforme em academia de andróides hipnotizados pela fantasia e ilusão.

FONTES:
(1) Souto Maior, Marcel As vidas de Chico Xavier / Marcel Souto Maior. 2. cd. rev. e ampl. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003.
(2) disponível em http://ulyssesdorego.arteblog.com.br/38023/entrevista-e-video-com-chico-xavier, acessado em 25-07-09
(3) Disponível em http://www.caminhosluz.com.br/detalhe.asp?codigo1=2639, acessado em 25-07-09
(4) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Cap.35. RJ: Editora FEB, 1977-5ª edição
(5) idem
(6) idem
(7) Colegiado dos Vínculos Fraternais, Desobsessão por Corrente Magnética, 1ª edição Sociedade de Divulgação Espírita "Auta de Souza"-1996.DF
(8) Nunes, René. Cromoterapia. A Cura Através da Cor. Editora Asa Sul./Brasília 1ª edição



Sobreo assunto leiam abaixo o que Divaldo afirma:


PERGUNTA: O Centro Espírita deve desenvolver atividades de cirurgia mediúnica?

DIVALDO PEREIRA FRANCO: Transformar o Centro Espírita em pequeno hospital para atendimento de todas as mazelas é uma loucura. Isso seria um desvio da finalidade da prática do Espiritismo. Podemos, sim, fazer uma atividade de atendimento a doentes que são portadores de problemas na área da saúde espiritual. Poderemos aplicar-lhes passes, doar-lhes a água fluidificada, se for o caso, mas a função principal do Centro Espírita é iluminar a consciência daqueles que o buscam e, quando na área da prática do Espiritismo, atender as pessoas necessitadas de todo tipo.

Chico Xavier, que eu sabia, é a maior antena transreceptora na área da mediunidade, do século. No entanto, está assistido por médicos terrestres. Ele tem um médico cardiologista, um clínico geral, um urologista etc. O Espírito do Dr. Fritz quis cirurgiá-lo, em 1965, através do médium não espírita Arigó: - "Eu te ponho bom desse olho. Faço-te a cirurgia agora!" O Chico respondeu-lhe: - "Não, isso é um karma. Eu sei que o senhor pode consertar o meu olho. Mas como o karma continuará, vai aparecer-me outra doença. Como eu já estou acostumado com essa, eu a prefiro. Por que eu iria querer uma doença nova?".

(Matéria publicada no jornal "A Gazeta do Iguaçu" em julho de 97)

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